Estudo aponta que esses ancestrais reuniam objetos sem função prática, demonstrando pensamento abstrato.
Uma nova análise de fósseis encontrados na Caverna Prado Vargas, na Espanha, sugere que os neandertais eram capazes de pensamento abstrato, mesmo antes de qualquer interação com o Homo sapiens. Essa conclusão surge da descoberta de um hábito peculiar entre esses ancestrais: colecionar objetos sem utilidade prática, movidos apenas pelo deleite estético.
Embora a coleção de objetos esteja frequentemente associada a tempos mais recentes — como a famosa biblioteca do rei assírio Assurbanipal, no século VII a.C., composta por tábuas de argila na antiga Mesopotâmia —, evidências arqueológicas indicam que essa prática é muito mais antiga. Entre os neandertais, que habitaram a Terra entre 400 mil e 40 mil anos atrás, já se observava o impulso de reunir itens que transcendem o apelo funcional.
No interior da Caverna Prado Vargas, em um nível datado de 39.800 a 54.600 anos atrás, pesquisadores encontraram 15 fósseis marinhos pertencentes a diversas famílias de moluscos do Cretáceo Superior. Esses fósseis, cuidadosamente transportados para o local, não mostram sinais de uso como ferramentas ou instrumentos de subsistência, sugerindo que sua presença se devia a um significado simbólico ou estético.
O que motivava os neandertais a colecionar?
A descoberta desafia antigas concepções sobre os neandertais, mostrando que eles não eram apenas habilidosos caçadores, mas também seres reflexivos e curiosos, características que costumam ser atribuídas apenas aos Homo sapiens. A motivação para coletar esses fósseis ainda intriga os cientistas: poderiam ter sido usados como ornamentos, marcadores culturais, presentes ou até brinquedos infantis, já que há indícios da presença de crianças no local.
Seja qual for a finalidade, o comportamento traz novas informações acerca da sofisticação cognitiva desses ancestrais. É significativo, por exemplo, que não haja evidências da presença de humanos primitivos nessa área durante o período analisado, o que reforça a ideia de que essa prática foi desenvolvida de forma independente pelos neandertais.
“Essas atividades podem ter sido motivadas por inúmeras causas tangíveis e intangíveis, o que sugere que atividades de coleta e o pensamento abstrato associado estavam presentes nos neandertais antes da chegada dos humanos modernos”, escrevem os autores.
Os achados mostram que o desejo de colecionar — seja para expressar curiosidade, criatividade ou senso estético — é uma característica profundamente enraizada na história da evolução humana. “Esses fósseis podem ser entendidos como evidência de um interesse artístico ou uma atração ou curiosidade pelas formas da natureza”, conclui o estudo.